Um site onde a alma de uma mulher aflora e despe-se

Posts marcados ‘florbela espanca’

Eu não sou de ninguém!

Eu não sou de ninguém

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“Eu não sou de ninguém!… Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!

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Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfurna as velas sobre os mastros!…

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Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!”

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Florbela Espanca

Angústia

Angústia

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“Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

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E não se quer pensar! … e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós …
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! …

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E não se apaga, não … nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga …
Vem sempre perguntando: “O que te resta? …”

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Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!”

Florbela Espanca

O vento…

O vento…

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O vento anda ficando mentiroso:

prometeu trazer você, não trouxe,

de dizer o porque, não disse;

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esperou que eu me distraísse,

passou com pressa, rumo ao horizonte.

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Já não tem importância que cometa

outra vez um ato de inconstância.

Aprendi a esperar.

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Se ventos são capaze de levar embora,

a qualquer hora também são

capazes de fazer voltar.

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Florbela Espanca.

Frêmito do Meu Corpo a Procurar-te

Frêmito do Meu Corpo a Procurar-te

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Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,
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Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!
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E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas…

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E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…
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– Florbela Espanca –

OS VERSOS QUE TE FIZ

OS VERSOS QUE TE FIZ

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Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem pra te dizer! 
São talhados em mármore de Paros 
Cinzelados por mim pra te oferecer. 
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Têm dolências de veludos caros, 
São como sedas brancas a arder… 
Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que foram feitos pra te endoidecer! 
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Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda… 
Que a boca da mulher é sempre linda 
Se dentro guarda um verso que não diz! 
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Amo-te tanto! E nunca te beijei… 
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei 
Guardo os versos mais lindos que te fiz! 
 
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Florbela Espanca

Escreve-Me…

Escreve-Me…

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Escreve-me! Ainda que seja só

Uma palavra, uma palavra apenas,

Suave como o teu nome e casta

Como um perfume casto d’açucenas!

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Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo

Que te não vejo, amor! Meu coração

Morreu já, e no mundo aos pobres mortos

Ninguém nega uma frase d’oração!

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“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,

Folhas leves e tenras de boninas,

Um poema d’amor e felicidade!

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Não queres mandar-me esta palavra apenas?

Olha, manda então… brandas… serenas…

Cinco pétalas roxas de saudade…

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Florbela Espanca

Saudades

Saudades

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Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?…
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
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Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.
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Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!
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E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!
Florbela Espanca

Eu queria mais altas as estrelas

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“Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua,
o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
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Mais amplas, mais rasgadas as janelas
das almas,
mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas,
mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
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E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer,
serenamente,
como dorme no berço uma criança.”
Florbela Espanca

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde
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Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.
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Fico a cismar pensativo
Neste mistério encantado…
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…
Florbela Espanca

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde – 

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Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.
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Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…

Florbela Espanca

vaidade

Para que?!…

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d’amor! Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

– Florbela Espanca

Lágrimas ocultas


Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar e outras eras
Em que ri e cantei, em que era qu’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

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